Diário de Bordo

Proteína Recuperada

SETOR SE RECOMPÕE APÓS ABALOS PROVOCADOS PELA OPERAÇÃO CARNE FRACA E PELO ESCÂNDALO DA JBS. ESPECIALISTAS SÃO OTIMISTAS COM FUTURAS EXPORTAÇÕES

 

 

As consequências da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, sobre o setor de abate e processamento de carnes parecem ter-se diluído. É o que apontam os índices e afirmam alguns de seus principais representantes. O combate ao esquema que liberava a comercialização de alimentos sem a devida fiscalização sanitária em 40 empresas afetou fortemente o setor durante três meses seguidos, até junho. Nesse período, exportações foram suspensas, a competência de toda uma grande indústria foi posta em xeque e muita gente foi parar no banco dos réus. O setor também foi duramente atingido em maio pelo escândalo JBS – maior processadora do País –, e seus principais dirigentes seguem envolvidos em uma séria de denúncias e delações de favorecimento e corrupção.

O que escapou do noticiário político-policial é que empresas, governo e entidades setoriais tiveram que trabalhar duro para convencer o resto do mundo de que as carnes brasileiras seguem competitivas e saudáveis. O esforço valeu. As vendas externas de carne bovina in natura foram as mais afetadas, mas entraram em recuperação já em maio. Em julho, o faturamento acumulado anual de US$ 2,6 bilhões representou uma alta de 3,1% sobre o mesmo período de 2016, demonstram os dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Em abril, já refletindo o escândalo, a entidade havia registrado queda no faturamento de 27% em relação a março – de US$ 401,3 milhões para US$ 291,9 milhões. Nesse período, o processamento caiu 28,5%, de 97,8 mil toneladas para 70 mil toneladas.

Para Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), houve uma generalização indevida que provocou prejuízos a um setor que está em aprimoramento contínuo há quatro décadas. De 150 países compradores de frangos e suínos brasileiros, 74 suspenderam temporariamente suas importações. Foi preciso muita explicação para que as portas se reabrissem. Alguns países retomaram os negócios em dois dias, outros em duas semanas. “Para nossa alegria, o Japão, que antes comprava 35 mil toneladas ao mês, em média, agora passou a comprar 50 mil toneladas”, conta Turra. O volume de frangos abatidos em abril, que foi 16,3% menor do que em março e caiu 23,3% em relação ao mesmo mês de 2016, acabou por fechar agosto com recorde de 416 mil toneladas. Já o volume de suínos abatidos caiu 22,8%, entre março e maio, voltando aos patamares históricos em junho.

Uma olhada nas exportações de bovinos mostra que os processadores enfrentaram crise pior há pouco tempo. Entre 2014 e 2016, o faturamento caiu 25,3% e o volume, 12,7%, informa a Abiec. Para o coordenador de pecuária e sócio da consultoria Agroconsult, Maurício Palma Nogueira, as exportações superaram as expectativas. Para ele, a produção de carne deve aumentar até 2019, por efeito dos estoques acumulados desde 2014, quando a economia começou a encolher. O fato de a JBS ter honrado seus compromissos com fornecedores ajudou a estabilizar o setor. “[Eles] aliviaram o mercado justamente no período mais complicado para o pecuarista, que é a entressafra”, afirma.

No cenário futuro, as perspectivas se mostram boas em termos de produção e negócios, ainda que exista uma dose de incerteza no horizonte. “O Brasil é visto como um fornecedor praticamente insubstituível”, diz Adolfo Lopes, analista da financeira holandesa Rabobank. Maior produtor de frango, segundo maior de bovino e quarto de suínos, para a melhoria do desempenho no mercado internacional o Brasil precisaria vencer barreiras comerciais, já que se mantém livre dos maiores riscos sanitários para a produção de proteína animal: febre aftosa, doença da vaca louca e gripe aviária.

Um risco para a superação das turbulências é o alto grau de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda nos últimos 12 meses) de suas maiores empresas: Marfrig, Minerva, BRF e a própria JBS. Todas apresentam um índice superior a quatro vezes, considerado alto para o setor. A alternativa obrigatória seria a venda de ativos e participações, a fim de reduzir riscos. A JBS afirma que criou um plano de desinvestimentos de R$ 6 bilhões, que terá 80% dos recursos direcionados à redução das dívidas. Com alavancagem de 4,16 vezes no primeiro trimestre, a empresa planeja chegar ao patamar de 3,5 vezes antes do fim de 2018. Além do acordo com bancos para alongar dívidas de curto prazo, estão em processo de venda as participações na Vigor, Moy Park e Five Rivers. Já a Marfrig anunciou o compromisso de reduzir a alavancagem para 2,5 vezes até o fim de 2018 – estava em 4,55 no fim do segundo trimestre. A empresa também deve captar recursos com a oferta pública inicial (IPO) de sua subsidiária nos EUA, Keystone Foods.

Francisco Turra afirma que o problema não é sistêmico no segmento e que essas ações podem gerar oportunidades. “Muitas empresas de porte médio são bem-sucedidas, pois descobriram nichos. Acredito que teremos rearranjos, porém não acredito que as grandes queiram crescer mais”, diz.

 

Fonte: Revista LIDE