Diário de Bordo

Pecuária: autoconhecimento e desafios

“A demanda tecnológica para aumentar a rentabilidade nas fazendas supera a demanda por tecnologia para liberar área de pastagens”

 

Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, sócio e coordenador de pecuária na Agroconsult

 

Ao completar 10 anos, o GTPS (Grupo de Trabalho em Pecuária Sustentável) coleciona motivos para comemorar. A proposta de trabalho era reunir diferentes interesses ao longo da cadeia produtiva em prol de objetivos comuns. O grupo colocou ideias na mesa e depois as tirou do papel, levando ações práticas para o campo.

Ainda assim, o maior avanço com o GTPS não pode ser mensurado apenas pelas ações diretas, executadas sob sua tutela. Empresas, produtores, instituições e organizações, participantes ou não, acabaram se sensibilizando pela temática. Portanto, mesmo fora do ambiente do GTPS, assuntos que sempre foram considerados tabus começaram a ser tratados com maior naturalidade, sensatez e ciência, permitindo a aproximação entre setores que dificilmente dialogavam. É o caso de representantes da produção e as ONGs (Organizações Não Governamentais) com atividades direcionadas à proteção ambiental.

O resultado é que foi possível conhecer um pouco melhor a pecuária brasileira. Acontecimentos históricos foram analisados com maior profundidade, permitindo esclarecer fatos e conclusões antes desconhecidas pelo público alheio ao ambiente produtivo. Não há dúvidas que o GTPS teve papel fundamental no estímulo deste debate, que culminou com a melhoria na base de conhecimento em relação à bovinocultura brasileira.

Diversos estudos econômicos, análises e pesquisas possibilitaram, por exemplo, esclarecer a real natureza do avanço da pecuária sobre as fronteiras. Entre os profissionais que acompanham o assunto com maior interesse, já se aceita a conclusão que o driver para o desmatamento foi a demanda pela ocupação de terras, e não a produção de carne. A pecuária, portanto, não precisou de desmatamento; foram as áreas desmatadas que precisaram da pecuária para que se consolidassem.

Até pouco tempo atrás, a noção deste processo era restrita aos profissionais ligados à produção, seja nas fazendas ou na prestação de serviços. O debate possibilitou que o setor se comunicasse melhor, iniciando um lento trabalho de mudança da imagem negativa que tradicionalmente acompanha a pecuária brasileira.

Mesmo entre os especialistas, a necessidade de maior reflexão, diante de um assunto conhecido, fez com que os estudos explicassem em mais detalhes um dos principais motivos da baixa tecnologia média adotada na pecuária. Foi possível concluir, com fatos e dados, que a dinâmica do processo de ocupação do território brasileiro acabou por limitar a expansão tecnológica nas fazendas.

Até meados dos anos 1990, o avanço sobre as novas áreas fazia com que o estoque de bovinos improdutivos no rebanho aumentasse ano a ano. Num ambiente econômico que privilegiava financeiramente a expansão territorial, aliada à formação e a manutenção do estoque, não havia muito estímulo para aumentar a produtividade dos ativos (terra, pastagens, rebanhos, etc.).

Ainda assim, ao contrário do que se pensava até pouco tempo atrás, a produção de carne bovina também registrou aumento nos índices de produtividade. Esse aumento ocorreu a partir do controle da hiperinflação, com o advento do Plano Real. O ganho histórico de produtividade a partir de 1990 é incontestável; mas é pouco perceptível considerando que os níveis médios encontrados nas fazendas ainda estão muito baixos.

Em 25 anos, o acréscimo da produtividade evitou o desmatamento de cerca de 200 a 230 milhões de hectares. Chega-se a este número calculando qual seria a necessidade de área para produzir a quantidade de carne ofertada nos últimos anos, caso a tecnologia de produção ainda fosse a mesma adotada em 1990.

 

Figura 1. Evolução da produtividade (@/ha/ano) e da ocupação (cabeças/ha/ano) nas fazendas pecuárias do Brasil.

 

Fonte: Agroconsult, dados do IBGE

 

No período, a produtividade por hectare aumentou 130%, enquanto a lotação bovina avançou 62%. A produção e o manejo das pastagens continuam sendo o principal gargalo da pecuária.

Nos últimos 10 anos, entre 2007 e 2016, a área total desmatada na Amazônia Legal foi de 7,5 milhões de hectares. No mesmo período, a agricultura avançou 10,2 milhões de hectares, enquanto a área de pastagens recuou 19 milhões de hectares.  A soma da área destinada à produção agropecuária recuou de 250,1 para 241,4 milhões de hectares, um saldo de 8,8 milhões de hectares que deixaram de ser explorados pela agropecuária.

A explicação está na revegetação nas áreas de pastagens que, de acordo com a ponderação de diversos dados disponíveis, acumula 32 milhões de hectares em apenas 10 anos. São pastagens que foram perdidas, após completarem todo o ciclo de degradação; totalizando prejuízos para os produtores e para a sociedade como um todo.

 

Figura 2. Comparação no acréscimo acumulado de áreas de desmatamento, agricultura e revegetação em área de pastagens. 

 

Fonte: Agroconsult, dados do IBGE, Prodes, Inpe, Lapig, Mapbiomas.

 

A reinstalação da vegetação natural é o principal ponto final do processo de degradação das pastagens.

Depois de degradadas, as áreas de pastagens podem seguir quatro caminhos possíveis:

– Reforma, com o produtor reinstalando um capim que deveria ser perene;

– Introdução de outra cultura na área, seja ela agrícola ou florestal;

– Revegetação, pelo reestabelecimento gradual da vegetação natural presente na região;

– Infestação por plantas rasteiras e outras gramíneas sem interesse econômico (gramão, capim duro, etc); ou erosão e início de desertificação, caso nenhuma planta secundária se estabeleça.

 

Os dados do Terraclass, Map Biomas e estudos conduzidos por empresas como a Agrosatélite comprovam a ocorrência dessa reinfestação em áreas de pastagens; fato que demanda ainda mais investigação, orçamentos e esforços para melhorar os diagnósticos sobre a realidade do campo.

Por falar em esforço, é essencial citar o exemplo do Rally da Pecuária, expedição que também se consolidou nestes últimos 10 anos. Aplicando uma metodologia de amostragens aleatórias, entrevistas com técnicos, produtores e avaliação por imagens de satélite, a Agroconsult, organizadora da expedição, vem acumulando informações e dados sobre a realidade das pastagens nas principais regiões de produção.

Nas avaliações a campo das últimas quatro edições (2014, 2015, 2016 e 2017), foram identificados o seguinte padrão de qualidade das pastagens:

 

Figura 3. Qualidade das pastagens encontradas aleatoriamente em 1.260 pontos amostrados entre os anos de 2014 e 2017 em 11 estados brasileiros.

 

Fonte: Agroconsult, Rally da Pecuária.

 

Em cinco critérios, as pastagens são classificadas pelas notas de 1 a 5, sendo que o stand tem peso 5, massa e invasoras possuem peso 3, enquanto os demais itens (homogeneidade, erosão e topografia) possuem peso 1.  Vale ressaltar que, quando há muita erosão, o stand já foi comprometido e o pasto segue um outro sistema de avaliação posterior à degradação.

Em termos conceituais, portanto, a Agroconsult assume que a diferença entre o pasto degradado e o pasto de qualidade 2 é a necessidade de reforma; que somará um orçamento cerca de duas vezes superior ao exigido tecnicamente para uma recuperação. Enquanto o stand de plantas no pasto degradado é insuficiente para uma recuperação, o pasto de qualidade 2 ainda pode ser restabelecido sem a necessidade de reforma.

Em análise por imagens de satélite dos pontos amostrados pelo Rally da Pecuária até 2014, observou-se que 12% das pastagens haviam passado por reformas entre os anos de 2003 e 2014, enquanto outros 13% haviam passado por recuperação. Os dados ainda mostram processo de degradação em 30% delas. Ou seja, avaliando o índice de vegetação por imagem de satélite, estes pastos estão piorando ano a ano sem intervenção. Somando as três classificações, chega-se à conclusão que 55% dos pastos visitados pelo Rally da Pecuária, entre os anos de 2011 e 2014, estavam passando pelo processo de degradação. As análises foram feitas pela Agrosatélite.

Os 45% classificados como “sem intervenção” não possibilitaram diagnóstico visual por satélite; nem pioraram e nem melhoraram. Não significa, contudo, que nada tenha ocorrido naquelas áreas; mas sim que não foi possível analisar por satélite.

Distribuindo as intervenções anualmente, ao longo da série temporal (imagens disponíveis entre 2003 e 2014), é possível esperar um nível de reforma e recuperação em torno de 2% a 2,5% ao ano, insuficiente para compensar a taxa média de 3% a 4% que atinge o nível “degradado” ao ano.

Caso se considere que todos os pastos deveriam estar com a qualidade 5 (a mais alta de acordo com o critério adotado pela da Agroconsult), pode-se apontar que 78% estariam com algum nível de degradação. Esse último critério é questionável, pois parte da hipótese de que todas as pastagens estiveram no nível de qualidade mais elevado, o que não é necessariamente uma verdade.

Em resumo: dependendo do critério considerado, é possível apontar que entre 55% e 77% dos pastos estão em processo de degradação. Os 55% são identificados pelo acompanhamento dos pontos por imagem de satélite, estudo conduzido sobre dados coletados entre 2011 e 2014.

Para finalizar, poderíamos citar ainda diversos outros exemplos de informações que vão sendo desmistificadas, possibilitando melhorar a base decisória, seja nas empresas de capital privado, seja na disponibilidade de dados para embasar políticas públicas relacionadas à produção pecuária.

Todo esse avanço nos últimos 10 anos tem o GTPS como o principal fórum de debate sobre o tema, motivo de orgulho para as empresas e organizações que acreditaram na iniciativa.

No entanto, se por um lado sobram motivos para comemorar, o GTPS não encontrará razão alguma para esmorecer. Apesar dos avanços, ainda há muitos desafios pela frente.

Depois de anos esgotando os diversos assuntos sobre áreas, emissões de carbono, água, produtividade, bem estar animal e todas as outras dimensões relacionadas à sustentabilidade, finalmente a face do verdadeiro desafio começou a se revelar. O maior risco relacionado à sustentabilidade não está relacionado à questão ambiental, mas sim à questão social.

O inevitável resultado de anos de estudos ainda esbarra em preconceitos arraigados em torno da pecuária brasileira. Os desafios, que outrora pareciam relevantes, começam agora a ocupar status de problemas potenciais; realidade que os mais atentos às tendências já haviam percebido anos antes. Isso ocorre porque a demanda tecnológica para aumentar a rentabilidade nas fazendas supera a demanda por tecnologia para liberar área de pastagens.

O real desafio não está na capacidade da produção pecuária em liberar áreas para atender as demandas de outras atividades. O grande desafio envolve toda a cadeia produtiva em torno do que fazer com os que serão excluídos das áreas que irão sobrar.

E essa exclusão é consequência da heterogeneidade na adoção de tecnologia pelos produtores. Os pecuaristas mais ágeis intensificam mais rapidamente, ampliando a sua competitividade e acelerando a exclusão dos produtores mais lentos.

A diferença diante dessa realidade altera todo o modelo de trabalho relacionado à sustentabilidade. Impõe-se uma urgente mudança nos conceitos que representam um choque para muitos profissionais dedicados ao tema, especialmente os ambientalistas.

Se o risco da sustentabilidade é social, e não ambiental, a solução passa necessariamente pelo esforço em ampliar o mercado de carne bovina. Ironicamente, grande parte do discurso dos ambientalistas sempre alinhou a sustentabilidade com o esforço em reduzir o consumo de carne bovina, quando, na verdade, deveria estar promovendo o contrário.

O principal desafio para o GTPS dos próximos anos é manter a interlocução em prol do objetivo comum, que é a sustentabilidade em sua base completa: econômica, social e ambiental. A pergunta que ficará no ar é se os ambientalistas aceitarão rever os conceitos, focando as ações na questão social, ou se vão continuar procurando problemas para as soluções que propõem.

No ano que o GTPS completa os 10 anos, há uma aparente quebra na harmonia entre o setor produtivo e as ONGs, que exemplarmente trabalharam juntos nos últimos anos. Agendas paralelas e a insistência em rediscutir assuntos já definidos poderão enfraquecer o rico debate em busca de soluções. E ao contrário do que sempre se apregoa na grande mídia, não é o setor produtivo que se nega a encarar o problema.

Mais do que nunca, o fortalecimento do fórum representado pelo GTPS se faz necessário.